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Os Novos Desafios do Bibliomóvel no Século XXI

No Hotel Parque Serra da Lousã

Qual o papel do Bibliomóvel no Século XXI, que caminhos deve trilhar para sobreviver face às novas tecnologias de informação e comunicação, e o seu papel no sector cultural e da educação, quais as estratégias a adotar num país ainda com 5% de analfabetos e alta taxa de iliteracia.


Tudo isto e muito mais, trouxeram ao Hotel Parque Serra da Lousã, os maiores especialistas na matéria, dias 15 e 16 de Abril.


Foi uma iniciativa da Fundação ADFP com organização do bibliotecário Carlos Marta e da animadora Cristina Cruz, elogiada por todos.


Os trabalhos dividiram-se por quatro painéis, com intervenções de grande qualidade de todos os participantes. Na 1ª intervenção, Margarida Mota, bibliotecária da Biblioteca Municipal de Miranda, abordou o tema “Literatura pública-serviço em rede”, traçando um quadro rigoroso da situação global através de números e dados estatísticos.


“As bibliotecas públicas integram-se no sector cultural mas também no da educação. A cultura desempenha obviamente um papel fundamental na qualidade de vida e de bem-estar dos indivíduos, sendo um importante motor de coesão territorial na medida em que valida a identidade cultural local”, referiu.


Para Margarida Mota, hoje a Biblioteca deve funcionar “como um espaço comunitário de encontro/reunião, de mobilização e transformação da comunidade – espaço de cidadania, alinhando os seus serviços com os objetivos da comunidade. Este modelo tem que sustentar-se numa filosofia de redes, as quais devem estar presentes em todos os domínios da sociedade, expressando uma relação igualitária e democrática.”


No Séc. XXI as Bibliotecas tem que se virar para os mercados


Beatriz Marques, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra falou da “Responsabilidade social da Biblioteca Pública no Séc. XXI”. Começou por fazer uma retrospetiva sobre as Bibliotecas em Portugal, referindo a importância da rede de bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, surgida num contexto de obscurantismo político e cultural do regime ditatorial que precedeu o 25 de Abril e a criação da Rede de Bibliotecas Públicas, já em plena democracia. Abordou depois a necessidade de repensar o funcionamento das Bibliotecas, melhorando o seu desempenho de forma a ir ao encontro dos seus utilizadores/clientes. “A coisa pública deve ser bem gerida. Por isso a Biblioteca deve ser avaliada e essa avaliação centrada na satisfação das pessoas. No Séc. XXI as Bibliotecas tem que se virar para os mercados, criar redes de informação, parcerias e mediações entre as diversas linguagens culturais”.


E concluiu referindo que “as Bibliotecas têm de sair dos seus muros e criar produtos e serviços de valor acrescentado. Têm de ir ao encontro dos seus reais e, sobretudo, potenciais clientes, estejam eles nas cidades ou nas aldeias mais remotas, e descobrir, mais do que satisfazer as suas necessidades. Tendo em conta a população cada vez mais idosa, cada vez mais fragilizada e carente de conhecimento, a opção pela itinerância é um princípio, em nossa opinião, absolutamente promissor”.


O papel da itinerância nos últimos 60 anos

Na abertura solene teve como intervenientes José Manuel Cortez, Diretor-Adjunto do Livro dos Arquivos e das Bibliotecas, Helena Araújo, do Gabinete da rede de Bibliotecas Escolares, e Graça Fachada que, em nome da Fundação ADFP deu as boas vindas a todos os participantes, o mesmo acontecendo a Ana Gouveia, com o pelouro da cultura no executivo municipal.


No segundo painel foi a vez de Nuno Felipe, escritor, recordar a importância das visitas da Biblioteca Itinerante ao Fraldeu, aldeia em que cresceu e onde o analfabetismo atingia a quase totalidade da população. Foi nesta Biblioteca que desenvolveu o gosto pela leitura, que não mais largou e o levou a publicar já dois livros. Uma intervenção onde foi dado grande relevo à forma como os funcionários da biblioteca sabiam lidar com uma população carente de alfabetização e desconfiada, fruto de um regime que promovia essa desconfiança e mantinha as pessoas longe do conhecimento.


Carlos Marta, bibliotecário da Biblioteca Itinerante da Fundação ADFP, traçou um quadro muito completo do papel da itinerância nos últimos 60 anos, tendo por fundo um filme sobre a biblioteca e os leitores que a procuram. Várias gerações ao longo de quase seis décadas passaram por esta carrinha, requisitando livros, procurando melhorar a sua cultura. “Este foi, é e continuará a ser um serviço de proximidade, capaz de chegar aos mais isolados, levando-lhes a cultura nos mais diversificados suportes, aprendendo com eles o muito que sabem e procurando superar as dificuldades em que se encontram, levando serviços capazes de o fazer” afirmou numa das intervenções mais aplaudidas.



No terceiro painel, Anabela Anjos, Bibliotecária da Biblioteca Municipal de Silves apresentou “um olhar holístico sobre o passado para compreender o futuro”, enquanto Gorete Afonso, Bibliotecária da Biblioteca Municipal de Montalegre falou de “itinerâncias culturais e sociais com os senhores barrosões”, apresentando um pequeno filme sobre a cooperação da Biblioteca com a GNR em sessões de esclarecimento aos idosos.


Foi aqui que Jaime Ramos, presidente do Conselho de Administração da Fundação, interveio para falar dos valores defendidos pela instituição a partir do lema “Investimos com bondade em pessoas”.


Terapia da fala: uma experiência que surpreendeu o auditório

No quarto painel registe-se a comunicação “Animação da leitura em contexto escolar” de Alice Alves, Professora Bibliotecária da Esc. José Falcão. Depois uma das mais aplaudidas intervenções foi a do jovem Terapeuta da Fala, João Canossa Dias, contar “Histórias: Palcos para a inclusão, Espaços de Participação”, a partir da sua experiência na ARCIL que, surpreendendo o auditório, levantou novas questões no acesso à leitura em pessoas com necessidades educativas especiais, a necessitarem de um novo olhar dos bibliotecários, numa das mais aplaudidas intervenções.


A encerrar os trabalhos de sábado, Leonor Riscado, Professora da Escola Superior de Coimbra, abordou o tema “Entrando devagar na Literatura Infantil - Paratextos e Pretextos”, através da apresentação de livros com uma apresentação diferente, repleta de imagens capazes de cativar os leitores mais renitentes. “É necessário criar pretextos, motivos para despertar a curiosidade, mas devemos também centrar a nossa atenção em alguns paratextos fundamentais para motivar essa curiosidade.”


Referiu ainda a importância do álbum e do livro ilustrado nesta estratégia de chamar à leitura, os menos predispostos a isso, dando exemplos de vários livros capazes de provocar e convencer os não leitores a chegar à leitura.


À noite, moderado pela Educadora Maria José Vale, houve uma tertúlia intitulada “Histórias à volta de uma mesa”, em que cada representante dos Bibliomóveis foi desafiado a contar uma lenda da sua região.


No sábado houve um workshop sob o lema “Desafios para o séc. XXI- Partilha de estratégias de leitura e animação”, onde todos participaram dando as suas ideias e mostrando o trabalho que desenvolvem.


No final do Workshop, os bibliomóveis percorreram o centro da vila, concentrando-se depois no mercado municipal, onde foi realizado um espetáculo de magia da autoria de Zeman. Depois do almoço na Fundação ADFP, houve uma visita pelo concelho de Miranda do Corvo.


Na sexta o almoço decorreu no Museu da Chanfana. Em todo o país são as câmaras que gerem e suportam os custos dos bibliomóveis com exceção de Miranda, com a Fundação ADFP que com alguns apoios das autarquias leva os livros a aldeias e escolas, com 64 paragens nos concelhos de Miranda do Corvo, Penela, Lousã e Góis.

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