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A Lei da Saúde Mental completou 10 anos. Em 2008 foi aprovado o Plano Nacional de Saúde Mental até 2016. A ADFP deseja comemorar estes factos lançando o projecto ≠/= Mente visando a integração das pessoas com doença mental grave.
A ADFP, sediada em Miranda do Corvo, tem como objectivo combater a exclusão social das pessoas com desvantagem física, psicológica, económica ou social.
As pessoas com uma doença psiquiátrica crónica, que afecta gravemente a sua funcionalidade, isto é, a sua capacidade para realizar as actividades de vida diária e de se relacionar com o meio envolvente, apresentam grandes dificuldades de inserção na sociedade.
A ADFP tem procurado desenvolver mecanismos que promovam a integração dos doentes psiquiátricos na comunidade, contribuindo para a redução do estigma e da discriminação da pessoa com doença mental.
A esquizofrenia, as psicoses, a doença bipolar e a demência são situações graves que limitam as capacidades psicossociais do indivíduo. O alcoolismo, o consumo de drogas e a depressão têm também um impacto muito negativo. As perturbações mentais da infância, especialmente quando ligadas a alterações comportamentais, são também preocupantes pelo impacto negativo na escola, na família e na criança.
As pessoas com doença mental crónica grave são as mais excluídas e marginalizados da nossa sociedade.
Vivem em hospícios, hospitais psiquiátricos, ou prisões para inimputáveis; nas cidades são frequentemente sem-abrigo e, nas pequenas comunidades ou bairros, são pessoas diferentes que muitas vezes criam medo e desconfiança nos vizinhos.
A ADFP criou e gere três respostas específicas para os doentes psiquiátricos: • Fórum Sócio-Ocupacional em Coimbra (resposta ocupacional), parceria com o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra. • Unidade de Vida Apoiada (resposta residencial) em Miranda, parceria com HUC. • Serviço Comunitário (resposta domiciliária) em seis concelhos: Coimbra, Condeixa, Lousã, Miranda, Penela e Poiares, apoiado pelo Alto Comissário para a Saúde.
Para além destas respostas a ADFP integra doentes psiquiátricos, combatendo a sua exclusão, integrando-os em serviços destinados a pessoas com deficiência ou doença crónica incapacitante, designadamente nas valências: 1.Centro de Actividades Ocupacionais 2.Formação Profissional 3.Enclave/Emprego Protegido 4.Empresas de inserção 5.Lar Residencial.
Estas cinco áreas dão resposta não só a pessoas com vários tipos de desvantagens ou incapacidades (neurológica, mental, motora, portadores de doenças raras ou crónicas que originam perda de autonomia) como também a pessoas com patologias psiquiátricas graves.
Para além das valências referidas há ainda a referir a Residência Geriátrica e a Residência Assistida (em parte integrada na rede de cuidados continuados) onde a ADFP sempre deu prioridade à admissão de pessoas com doença de Alzheimer e outras demências senis. Recordamos que quando a ADFP iniciou o funcionamento destas valências (em 1993) ainda era habitual que nos regulamentos dos lares de idosos houvesse um preceito a recusar a admissão de pessoas com demência e também de pessoas acamadas.
Sempre a ADFP contrariou esta orientação absurda e assumiu que a prioridade na admissão era exactamente as pessoas com demência ou acamadas. Quando, sem o apoio da Segurança Social inaugurou em 1997 a Residência Assistida (de resto uma designação que veio a ser adoptada recentemente por todos os grupos financeiros privados que decidiram investir no sector, com fins lucrativos) vocacionou-a para doentes de Alzheimer ou com outras demências senis a necessitar de cuidados continuados.
O pioneirismo da ADFP fica mais evidente agora quando se espera que o Governo alargue a actual rede de cuidados continuados à problemática das pessoas com doença mental. Porque temos sabido inovar e criar soluções integradoras que acabam por ser adoptadas por outras instituições decidimos hoje apresentar o projecto ≠/= Mente.
Segundo a OMS as doenças mentais são responsáveis por 31% dos anos vividos com incapacidade chegando aos 40% na Europa.
Estamos em Portugal onde só 3% do orçamento da saúde é destinado á doença mental. Nos países Escandinavos atinge-se os 10%. Mais de metade dos países europeus afectam mais de 5%. Portugal não pode continuar a gastar menos de metade da média europeia com as pessoas com doença mental.
Facto mais importante porque a crise económica pode ser factor de aumento do número de pessoas com doença mental. É bom não esquecer que a depressão está ligada à vulnerabilidade social a à pobreza. Pobreza não é só não ter dinheiro. É não ter rede social, sofrer de abandono, de isolamento.
Recordamos que segundo a OMS 30% das pessoas poderão sofrer de um qualquer problema mental. Uma em cada 4 famílias tem uma pessoa com doença mental.
Portugal possui um excelente sistema de saúde com muitos bons resultados como acontece por exemplo na mortalidade infantil. Infelizmente Portugal está muito atrasado no que respeita aos cuidados à pessoa com doença mental grave.
Fizemos pouco ao não criar residências na comunidade. Pouco na integração. Pouco no apoio ao emprego dos doentes mentais. Não se incentiva, antes se complica, a criação de emprego protegido. Não se incentiva, antes se complica, na criação de empresas de inserção para doentes mentais.
Ninguém imagina a burocracia, a inércia, que impede o alargamento deste apoio à integração laboral.
Portugal não pode continuar a gastar 83% do orçamento no internamento hospitalar do doente mental. Sai caro, é antiquado, não promove a integração, nem o bem-estar e a felicidade da pessoa com doença mental.
Com o projecto ≠/= Mente a ADFP quer fazer mais e melhor.
Queremos fazer melhor e sensibilizar os outros actores, Estado e sociedade, para também fazerem o seu papel.
A ADFP pretende continuar a apostar na inclusão da pessoa com doença mental, procurando adaptar os serviços existentes às características individuais, e desenvolver novas formas de intervenção para responder melhor às necessidades das pessoas com problemas de saúde mental.
O Projecto ≠/= Mente tem como objectivo analisar e sedimentar a experiência da ADFP na área da saúde mental nos últimos anos e, por outro, criar condições para o desenvolvimento de novas respostas de reabilitação psicossocial dos doentes mentais.
De acordo com a Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental (2007) os recursos existentes na área do apoio residencial e ocupacional continuam a ser em número insuficiente apesar dos progressos realizados desde a aprovação do Despacho Conjunto Saúde/Segurança Social nº407/98. É, então, necessário investir na expansão deste tipo de respostas sociais de modo a favorecer a integração e a reabilitação psicossocial das pessoas com problemas de saúde mental.
As perturbações mentais graves dão origem à perda ou diminuição das capacidades de relacionamento, de adaptação social, e de desempenho profissional.
A Reabilitação Psicossocial é definida pelo Conselho Nacional de Saúde Mental, (2002) como “o processo pelo qual a pessoa é ajudada a adaptar-se às limitações da sua incapacidade, a recuperar capacidades perdidas e a desenvolver novas competências, de forma a ultrapassar a situação de desvantagem psicológica e social que lhe adveio da sua perturbação psiquiátrica, tendo em vista melhorar a sua autonomia e a sua qualidade de vida.
No âmbito do Projecto ≠/= Mente, a ADFP pretende prestar cuidados de reabilitação psicossocial, que segundo a Lei nº 36/98 (Lei da Saúde Mental), devem ser assegurados preferencialmente em estruturas residenciais, centros de dia e unidades de treino e reinserção profissional inseridos na comunidade.
A intervenção em contexto comunitário é um ponto fundamental nas novas políticas de saúde mental, visto que evita o afastamento dos doentes do seu meio habitual e facilita a sua inserção social. De facto, é essencial combater o isolamento e a perda de laços de pertença, que estão na base muitas vezes das situações de exclusão social. Foi com este objectivo que criámos em Dezembro de 2008 a equipa comunitária para apoiar o doente mental na sua casa, junto dos amigos e conhecidos, mobilizando os apoios existentes na proximidade, criando uma rede de ajuda.
A ADFP pretende consolidar as respostas já criadas e acelerar a implementação do serviço domiciliário nos seis concelhos (Coimbra, Condeixa, Lousã, Miranda, Penela e Poiares) em colaboração com as autarquias, IPSS locais, os HUC, Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra e Centros de Saúde.
Além disso, é preciso implementar campanhas de sensibilização junto da população de modo a reduzir o estigma e a discriminação em relação às pessoas com problemas de saúde mental (Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental, 2007). Este é um passo importante no processo de integração das pessoas com doença mental, uma vez que as atitudes estigmatizadoras resultam da falta de conhecimento adequado, de preconceitos e de ideias erradas acerca da doença mental.
A ADFP pretende criar um clube psicossocial e desenvolver actividades de psicoeducação para o público em geral de forma a evitar a marginalização das pessoas com doença mental.
No campo da criação de novas respostas a ADFP aguarda que a ARS se pronuncie sobre um projecto para a construção nova estrutura residencial de apoio máximo para doentes psiquiátricos a edificar na vila de Miranda.
A experiencia adquirida obriga-nos a alargar a nossa capacidade de resposta residencial dando resposta a pessoas incapazes de viver na sua própria casa, na sua comunidade.
É evidente que preferimos que a pessoa com doença mental possa viver na sua própria casa. Mas reconhecemos que há casos em que se justifica e é fundamental encontrar residências apoiadas capazes de dar a resposta que necessitam.
No Senhor da Serra a ADFP está a estudar a implementação de um centro de actividades ocupacionais integrado com a creche e lar de idosos. Consideramos que a integração da pessoa com doença mental em estruturas polivalentes, assente no convívio inter-gerações, contribui para a melhoria funcional do doente. A nossa experiencia diz-nos que este é um caminho com sucesso.
É conhecido que a integração de pessoas com doença mental tem mais sucesso em meios rurais, em pequenas povoações, do que nas grandes cidades.
Um outro aspecto que nos parece essencial é a prevenção da doença mental especialmente na infância. Desejamos criar uma parceria com a pedopsiquiatria do Hospital Pediátrico para apoiarmos melhor as nossas crianças. Queremos fomentar acções de formação destinadas a colaboradores das nossas valências da infância (CEI, creche, pré-primária, ATL, lar de apoio) e aos pais para prevenirmos casos de hiperactividade e dificuldades de aprendizagem.
A ADFP apoia e incentiva as iniciativas que visem a deshospitalização dos doentes mentais mas defende a criação de respostas sociais e de saúde na comunidade que garantam o apoio adequado às pessoas com doença mental crónica e grave.
A deshospitalização, sem a criação prévia de respostas adequadas, seria uma péssima opção política, deshumanizando ainda mais os cuidados devidos a estes cidadãos.
≠/=Mente tem a imensa ambição de procurar responder aos novos desafios colocados na área da saúde mental.
Queremos contribuir para o processo de integração social das pessoas com problemas de saúde mental contribuindo para a dignificação das pessoas com doença mental.
Sabemos que há famílias esgotadas, que em silêncio, durante décadas, durante vidas inteiras, são sobrecarregadas com a falta de apoios e inexistência de respostas comunitárias: de saúde, residenciais, profissionais e sociais.
Este projecto ≠/=Mente assenta numa vasta equipa multidisciplinar com médicos, enfermeiros, psicólogos, sociólogos, antropólogos, técnicos de serviço social, terapeutas ocupacionais, monitores, professores, fisioterapeutas e licenciados em psicomotricidade.
Sabemos que a doença mental não é um exclusivo de médicos e enfermeiros. Exige equipas multidisciplinares, com profissionais dedicados, como acontece na ADFP.
O nível modesto do orçamento destinado pelo Estado à doença mental é sem dúvida um factor que justifica o atraso do País.
Mas o mais grave é o silêncio. O fazer de conta que não vemos.
Eles podem não ter voz… mas Nós, ONG’s, comunicação social, famílias de pessoas com doença mental e comunidade temos a necessidade de colocar o apoio ao doente mental na ordem do dia e na agenda mediática.
Temos de obrigar os políticos a colocar a doença mental na lista de prioridades.
Politicas de integração e reabilitação do doente mental exigem que as ONG’s e particularmente as IPSS (instituições privadas de solidariedade social) colaborem com o Estado e as famílias.
A integração do doente mental grave deve ser uma prioridade.
Por essa razão a ADFP promove esta conferência e o projecto ≠/=Mente para lutar contra o estigma, a descriminação e a exclusão social. |