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Laicos inspirados na tradição cristã

2º Capítulo da Real Confraria da Matança do Porco

“Somos laicos mas inspiramo-nos na tradição cristã, a única das três religiões monoteístas onde se faz a matança do porco”, afirmou Jaime Ramos, presidente do conselho de Lavradores da Real Confraria da Matança do Porco, durante o IIº Capítulo, realizado sábado, 9 de Outubro, na Quinta da Paiva, em Miranda do Corvo, que entronizou 19 novos confrades.

 

Perante uma plateia de 161 pessoas, entre confrades de 20 confrarias, 72 dos quais da Real Confraria da Matança do Porco e, os representantes de três confrarias estrangeiras de França e Espanha, Jaime Ramos deu as boas vindas a todos, relembrando que a confraria nasceu de “um grito de revolta contra a ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), que na altura queria sufocar uma parte do mundo rural, proibindo a matança do porco em casa”. Algo que já de pode fazer, volvidos dois anos, desde que se respeitem as normas sanitárias, e que ocorreu ao fim da manhã, em frente ao picadeiro coberto da Quinta da Paiva, numa recriação histórica do Grupo Etnográfico das Tecedeiras dos Moinhos.


Primeiro o golpe certeiro no peito do animal, depois a recolha do sangue para os alguidares, que uma vez cozido e temperado de alho, salsa, azeite e vinagre, é dado a provar, em dois pratos ainda em cima do porco, depois deste ter sido liberto dos pelos com o fogo da carqueja e lavado com água.


Na sua alocução, Jaime Ramos falou também da “valorização dos produtos endógenos” derivados do porco, de uma matança do porco “alargada a todo o país”, do “potencial turístico desta tradição”, com muita força “no interior, reunindo famílias e amigos em grandes festas”. Jaime Ramos relembrou também que parte do dinheiro da confraria reverte a favor das obras sociais da Fundação ADFP, de que é presidente, que caracterizou brevemente, com especial destaque para o projecto da Quinta da Paiva, parceria com a Câmara Municipal, e o Parque Biológico da Serra da Lousã, cenário onde decorreu o evento, e que emprega pessoas vítimas de exclusão, desempregados de longa duração e deficientes e doentes mentais. No átrio do picadeiro coberto, os participantes puderam admirar a exposição “Emoções Gastronómicas”, com doze trajes de outras tantas confrarias, parte apenas do espólio reunido por Paulo Sá Machado nas últimas décadas.

 

A cerimónia da entronização

 

De pé, nas duas primeiras filas da plateia, os 18 novos confrades prestaram juramento: “declaro por minha honra preservar, promover e divulgar o ritual da Matança do Porco como festa genuína da família e dos vizinhos, reconhecendo o papel da cultura cristã na valorização da economia e da gastronomia associada à carne de porco; prometo valorizar os sabores da gastronomia nacional associados à matança do porco; juro tratar com respeito e espírito fraterno todos os confrades da Real Confraria da Matança do Porco e apoiar o espírito solidário da Confraria na ajuda aos mais desfavorecidos”.


Após o juramento, foram chamados um a um, para receberem as insígnias, serem entronizados e obterem o respectivo diploma. O elemento surpresa foi a entronização de um 19º confrade, uma bebé de quatro meses de vida, com o nome de Inês Fernandes Ramos, neta do confrade-mor, Jaime Ramos. Para além deste último, na mesa encontravam-se Fernando Santos, Mercador do Mesteiral, Quirino São Miguel, Magarefe da Assembleia, Sérgio Seco, vereador do Município de Miranda do Corvo, e Manuel Leal Freire, em representação da Federação Portuguesa das Confrarias.


Sérgio Seco, representante da autarquia, saudou a Real Confraria da Matança do Porco, e elogiou o “grande trabalho” da Fundação ADFP, recordando o cenário envolvente do Parque Biológico da Serra da Lousã, sobre o qual anunciou para breve a introdução de dois novos animais, o lobo e o lince ibérico.


Manuel Leal Freire, numa breve intervenção, começou por sublinhar que “a humanidade é uma grande confraria”, referiu o porco “como animal inteligente e nadador exímio”, elogiando-o ainda como “um calendário de sabores, que dura o ano inteiro”, antes de nomear a França como “terra do ressurgimento das confrarias da nova idade”.

 

As confrarias estrangeiras na Matança do Porco

 

Pela primeira vez, três confrarias estrangeiras estiveram presentes num Capítulo da Real Confraria da Matança do Porco, sendo duas de França e uma de Espanha, tendo recebido as respectivas insígnias.


Pierre Lescallier, embaixador para Portugal, onde reside há três anos, da Confraria de St. Romain, de Livourne, na região de Bordeaux (França), uma confraria báquica, dedicada ao vinho, contou que no seu país também existe o cerimonial do “petit cochon” (leitão), que durante dois dias “de copos” reúne as populações em ambiente de grande animação: “Portugal nada tem a invejar à França, em termos gastronómicos, vinícolas, arquitectónicos e de património cultural, o que é pena é não os dar suficientemente a conhecer no mundo”, afirmou.
Lescallier, vinha acompanhado da esposa, Celeste Simões, da Confraria da Lampreia de Penacova, que conheceu em França, num capítulo da Confraria Gastronómica do Cèpe de la Pointe du Médoc, em Soulac-sur-Mer, uma confraria dedicada aos cogumelos típicos daquela região, também próxima de Bordéus, e cujo representante, Gilles Testut, se declarou “encantado” com todo o cerimonial da Real Confraria da Matança do Porco.


Por Espanha, Eugénio Florez, representou a Orden del Sabadiego, nascida há 27 anos em Noreña, perto de Oviedo (Astúrias) para recuperar e promover um enchido, o sabadiego, que “se fabricava com materiais de baixa qualidade”, composto de morcela e cebola. Missão cumprida, que fará com que na próxima edição do dicionário da Real Academia Espanhola, já não conste a designação de “enchido de segunda categoria” mas sim a de “produto de qualidade”. Ou não fossem o Rei Juan Carlos presidente de honra da confraria e o escritor Camilo José Cela, cavaleiro honorário. Sendo a Orden do Sabadiego só para homens, ela decidiu aceitar mulheres numa outra ordem a ela ligada, a Orden de las Peregrinas, que trouxe a Miranda do Corvo, Beatriz Queiroz.

 

Oração de Sapiência e ementa da Matança

 

Coube a João Colaço, investigador, jornalista, escritor, ex-funcionário público, a oração de sapiência deste IIº Capítulo. Começando por dizer que “é preciso viver a alma das nossas terras cheias do amor das nossas gentes”, acrescentou que “são as tradições que dão vida ao povo, base do património da humanidade”. Uma referência aos grupos folclóricos, “que trazem a matança do porco para os seus programas e as confrarias”. João colaço abordou o estudo da cozinha na matança do porco, do seu contributo para a identidade das sociedades, dos seus derivados na área alimentar, e das regiões com certificado de qualidade, para utilizá-lo “como arma contra a morte de particularismos” e no “ressuscitar da consciência da indústria”: “a matança em si é que marca a região e o seu povo, longe das pequenas e grandes cidades”, concluiu sobre este “ritual pagão a entrar em desuso mas interessante para a sociedade de consumo”.


Os presentes, ainda antes da cerimónia de entronização, já tinham podido deliciar-se com a “bucha da matança”, que incluía o bucho recheado, sangue e orelha cozidos, enchidos grelhados e presunto fatiado. Depois da oração de sapiência deu-se início ao almoço com que terminou este IIº Capítulo da Real confraria da Matança do Porco: sopa do campo com enchidos, sarrabulho com batata cozida e grelos, pernil de porco com batata de forno, arroz doce, tigelada, fruta laminada e mirandenses.
 

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