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Emprego e Deficiência: Exemplos de Boas Práticas no Mercado de Trabalho

O caso da Fundação ADFP pela Associação Salvador

A Fundação ADFP - Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional - é uma Instituição Particular e Solidariedade Social (IPSS) de Miranda do Corvo que presta apoio a pessoas com deficiência, doentes crónicos, crianças, jovens, idosos e à comunidade em geral, apostando no desenvolvimento regional e promoção da qualidade de vida das pessoas que frequentam as diferentes valências da instituição. Cerca de 30% dos funcionários da Fundação ADFP são pessoas portadoras de deficiência, sendo esta instituição um exemplo a seguir no que respeita ao emprego das pessoas com deficiência.


Cristina Oliveira - Psicóloga na Fundação ADFP

«Apesar das adversidades da vida não podemos deixar de acreditar num futuro mais promissor.»
Cristina Oliveira tem 33 anos e é natural de Viseu. Tirou o curso de Psicologia na Universidade de Coimbra e há dois anos que trabalha como psicóloga clínica na Fundação ADFP. Tem uma doença degenerativa que lhe tem retirado mobilidade, começando agora a deslocar-se em cadeira de rodas, mas nunca perdendo a força de viver.


Associação Salvador (AS): Depois de ter terminado a licenciatura em Psicologia, como foi o processo de procura de emprego?


Cristina Oliveira (CO): Apesar da fase difícil pela qual todos atravessamos actualmente, o processo de procura de emprego não se revelou muito prolongado. Ao vaguear pela Internet na tentativa de concorrer a anúncios de emprego, cruzei-me ocasionalmente com o site da ADFP. Enviei o curriculum via correio electrónico e após três meses de ter terminado o curso estava a realizar um estágio profissional nessa mesma entidade, onde ainda hoje me encontro a desempenhar funções de psicóloga clínica, abrangida pelo segundo contrato de trabalho a termo certo.

AS: Fale-nos um pouco sobre do seu dia-a-dia na instituição onde trabalha...


CO: O meu horário de trabalho estabelecido é das 09h às 17h15. As minhas funções como psicóloga na Fundação abarcam essencialmente a avaliação, intervenção e acompanhamento psicológico de idosos em Centro de Dia, Lar e na Unidade de Cuidados Continuados Integrados. No início do estágio foi-me ainda confiada a tarefa de avaliar, intervir e acompanhar mulheres acolhidas no Centro de Apoio à Mulher e à Vida (CAMV). Esta valência é constituída por grávidas e/ou mães nos primeiros tempos de pós-parto, com carências sociais ou necessidades de saúde específicas, mulheres vítimas de maus-tratos, sem suporte familiar, mulheres marginalizadas, excluídas com problemas judiciais ou com ligação à prostituição. Ao longo do tempo de permanência na Fundação, tenho também elaborado algumas acções de formação.

AS: Sente que a instituição onde trabalha respondeu de forma adequada às suas necessidades, em termos de acessibilidades?


CO: Sim, sem dúvida. O Dr. Jaime Ramos, a Dra. Patrícia Fernandes, a Dra. Glória Correia e a Dra. Dalila, entre outros, procuraram desde sempre responder às minhas necessidades emergentes. A ausência ou diminutas necessidades encontradas, resultam do facto da Fundação ADFP ser uma entidade sensibilizada para esta realidade e de prática inclusiva de pessoas portadoras de deficiência.

AS: Foi necessário fazer alguma adaptação de posto de trabalho, ou qualquer atenção especial?


CO: Não, não houve qualquer necessidade de adaptação. As condições existentes eram as propícias à minha prática profissional.

AS: Trabalha numa instituição que emprega muitas pessoas com vários tipos de deficiência. Como é a relação entre as pessoas com deficiência e sem deficiência?


CO: Sim, é verdade. Muitos trabalhadores da Fundação ADFP são pessoas portadoras dos vários tipos de deficiência (motora, visual, auditiva e mental). Alguns desses trabalhadores são dirigentes de cargos reconhecidos. A relação entre as pessoas com e sem deficiência tem sido uma relação crescente e vinculativa de camaradagem e cumplicidade. Aqui combate-se o preconceito e é reconhecida a igualdade essencial entre as pessoas. A norma de incrementar a diversidade, tem promovido a igualdade de oportunidades, de forma que todos possamos desenvolver as nossas potencialidades.

AS: Houve algum cuidado especial que foi necessário ter para que a sua integração na instituição acontecesse com sucesso?


CO: Não, não houve nenhum cuidado especial. Foi uma integração e percurso até agora natural. A Fundação ADFP tem o cuidado de conceder acções tendentes a proporcionar condições e processos de adaptação e compensação das nossas limitações funcionais, fomentando um acessível desempenho das nossas funções.

AS: Que mensagem deixaria a outras pessoas que, como a Cristina, têm deficiência motora, e neste momento estão desempregadas, à procura de emprego?


CO: Infelizmente, vivemos um árduo momento de procura de emprego, não só para pessoas portadoras de deficiência, mas também para as pessoas ditas normais. Contudo, apesar das adversidades da vida, do momento, não podemos deixar de acreditar num futuro mais promissor. Numa retrospectiva, constatamos na trajectória da pessoa com deficiência uma conquista dos nossos Direitos e valores. Incumbe-nos a nós continuar a lutar pela igualdade de oportunidades, por uma sociedade mais justa. Temos um desafio pela frente que nos compromete a evitar a perda dos Direitos até agora alcançados.
Ter uma deficiência não faz com que uma pessoa seja melhor ou pior do que uma pessoa dita normal. As pessoas com deficiência têm o direito e podem tomar as suas próprias decisões e assumir a responsabilidade pelas suas escolhas.
Deixo a sugestão às pessoas portadoras de deficiência e detentoras de licenciatura ou bacharelato, para enviarem o seu currículo para a Fundação ADFP, ao cuidado do Dr. Jaime Ramos. Poderá ser um passaporte de oportunidades para demonstrarem os seus conhecimentos/valores, tal como tem sido para mim.
 


Alcino Bento - Responsável pelo Serviço de Pessoal da Fundação ADFP


«Cerca de 30% dos trabalhadores da ADFP são portadores de deficiência»
Alcino Bento, 51 anos, tem o 12º ano e é paraplégico. Desde 1992 que é responsável pelo Serviço de Pessoal da Fundação ADFP.


Associação Salvador (AS): Sabemos que a Fundação ADFP tem sido distinguida com alguns prémios, como por exemplo, o European Enterprise Awards. Pode falar-nos um pouco sobre essas distinções?
 

Alcino Bento (AB): De facto, a Fundação ADFP, com mais de duas décadas de intervenção comunitária, tem visto reconhecido o seu trabalho, o que traduz numa forte motivação para fazer mais e melhor. Para além de referencias elogiosas por parte do Presidente da Républica, Cavaco Silva, no seu “Roteiro para a Inclusão”, do Prémio Nobel da Paz, Don Ximenes Belo ou do actor Rui de Carvalho, na sua missão de Presidente do Conselho Nacional para a Política da 3ª Idade, a Fundação ADFP recebeu ainda o 1º Prémio Nacional dos European Enterprise Awards, na Categoria de “Investimento Humano”, que recebeu das mãos do Ministro da Economia, pelo seu projecto de parceria com a Câmara Municipal de Miranda do Corvo, na Quinta da Paiva, que visa essencialmente a integração profissional de grupos mais vulneráveis. Por último, importa realçar que a Fundação ADFP e o seu Presidente, Dr. Jaime Ramos, se encontram neste momento entre os 3 nomeados pela SOCIALGEST, para os Prémios “Instituição do Ano” e Presidente do Ano”, respectivamente.


AS: Têm vários protocolos com o Centro de Emprego e também vários programas de formação profissional a decorrer. Pode falar-nos um pouco sobre esses projectos? Muitas das pessoas que empregam começam por frequentar estas formações?


AB: Sim, a Fundação tem vários Projectos de Formação e Emprego Apoiado, com apoios do Fundo Social Europeu, Instituto de Emprego e Formação Profissional/ Centro Emprego da Lousã, tais como:
- Formação Profissional (POPH) – Medida 6.2.: cursos com a duração de dois anos, com ofertas formativas em sete áreas distintas e que visam dotar as pessoas com deficiências ou incapacidades das competencias básicas para o desempenho de uma profissão. Este projecto caminha neste momento para a obtenção de diplomas de dupla certificação (escolar e profissional), com base no novo guia organizativo proposto pelo IEFP.
- Centro de Actividades Ocupacionais (CAO): destina-se a pessoas cujo grau de deficiência ou incapacidade não lhe permite a frequência com sucesso de um percurso formativo/ integração profissional e que encontram na Fundação uma actividade ocupacional, na maioria dos casos ligada à preservação do artesanato regional, para além da possibilidade de frequentar um conjunto de outras actividades lúdicas e educativas, recebendo mensalmente, sempre que a sua situação económica o justifique, um pequeno subsídio de Integração Social.
- Emprego Protegido/ Apoios à Contratação: a Fundação tem neste momento 21 trabalhadores em regime de Emprego protegido/Enclave, em diversas áreas (fisioterapia, serviços administrativos, cozinha, jardinagem, agropecuária e limpeza). São trabalhadores portadores de deficiência, cujo grau é antecipadamente definido pelos serviços de avaliação do IEFP em função da profissão a desempenhar, que comparticipa o seu vencimento em função desse mesmo grau de incapacidade/desvalorização.
- A Fundação recorre às medidads de apoio à contratação para a integração de pessoas deficientes nos seus quadros de pessoal.
- Estágios Profissionais: a Fundação ADFP candidata, em média, 15 a 20 jovens com qualificação média ou superior ao Programa de Estágios Profissionais financiado pelo IEFP, alguns dos quais para quadros superiores portadores de deficiência. Em mais de 80% dos casos, essas pessoas têm oportunidade de realização de um contrato de trabalho com a Fundação, terminado o seu estágio.


AS: Qual é a estratégia da Fundação ADFP no que respeita que respeita à empregabilidade das pessoas com deficiência?


AB: A Fundação nasceu e cresceu tendo sempre em vista a ajuda/apoio a deficientes, independentemente da sua deficiência ou estudos. Acima de tudo, procuramos ser um exemplo como IPSS na área do emprego, mas também na percentagem de trabalhadores com deficiência. Cerca de 30 % dos trabalhadores da ADFP são portadores de deficiência. Destes, alguns ocupam cargos de “topo” e/ou de responsabilidade.


AS: Quais são os tipos de deficiência das pessoas que trabalham na Fundação ADFP e que tipo de funções desempenham?


AB: Efectivamente, os trabalhadores com deficiência da Fundação são cerca de 30 % num universo de 170 trabalhadores efectivos e a contrato. Temos um técnico de contas responsável por toda a contabilidade da Instituição; uma economista com 56 cm de altura, a trabalhar também na contabilidade,;um gestor com cerca de um metro de altura; um economista com deficiência crónica emofílica, responsável pelo Serviço de Aprovisionamento da Fundação; duas Psicólogas com deficiência motora, sendo uma delas amputada de ambas as pernas, responsável pela valência “Fórum Sócio-Ocupacional” com sede na cidade de Coimbra, onde permanecem diariamente cerca de 14 utentes com Alzheimer; um paraplégico responsável pelo Serviço de Pessoal da Instituição; um paraplégico responsável pelo secretariado da Fundação e cerca de 25 trabalhadores do sexo feminino e masculino no Emprego Protegido, com deficiência mental leve e outros tipos de deficiência, sendo um deles amputado de um braço.


AS: Que mais valias considera terem as pessoas portadoras de deficiência para uma empresa, em geral, e na vossa instituição, em específico?


AB: Acima de tudo, o factor integração. É importante que o cidadão deficiente se sinta integrado na sociedade, assuma tarefas de responsabilidade e se sinta útil e apoiado. Na Fundação ADFP queremos ser os primeiros no exemplo, no apoio e na realização pessoal de cada pessoa deficiente. Aqui misturam-se trabalhadores ditos normais, deficientes, crianças e idosos, que comungam do mesmo espaço e se sentem interligados no aspecto profissional e pessoal. Muitos de nós, sabemos que somos privilegiados em ter um emprego, receber o nosso ordenado mensalmente sem atrasos e saber que somos respeitados pela nossa entrega, profissionalismo e competência. É o nosso mundo…


AS: Dada a experiência que a Fundação ADFP tem com as pessoas com deficiência, e em específico nesta área do emprego, que recomendações daria a outras empresas, quer públicas, quer privadas, quando estas pensassem em contratar pessoas com deficiência?


AB: Todos sabemos que as empresas, principalmente as estatais, não cumprem com a quota de mercado obrigatória por Lei no que respeita ao emprego do cidadão com deficiência. O trabalhador deficiente pode ser assíduo, competente e muitas vezes (falo por experiência própria), mais produtivo do que um trabalhador dito normal. Além disso, existem apoios para a contratação de “trabalhadores deficientes”, nomeadamente na isenção de pagamentos de remunerações à Segurança Social durante 36 meses e do Centro de Emprego no apoio à adaptação de estruturas específicas a cada deficiência ao posto de trabalho.

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