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Delegação da Associação de Antigos Deputados da Assembleia da Republica visitou Miranda

No âmbito do 24º aniversário da Fundação ADFP

Vinte e oito membros compunham a delegação da Associação de Ex-Deputados da Assembleia da República, que visitou a Fundação ADFP de Miranda do Corvo no âmbito do seu 24º aniversário, dia 5.
 

Sem excepções, os membros da delegação foram unânimes em declararem-se “surpreendidos e deslumbrados com a obra realizada” pela Fundação Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional”, criada em Novembro de 1987 e dirigida pelo médico Jaime Ramos, ex-presidente da Câmara Municipal local, ex-Governador Civil de Coimbra e também ele ex-deputado no parlamento.


Foi à entrada do Centro Social Comunitário, sede da Fundação a cujo Conselho de Administração preside, que Jaime Ramos deu as boas vindas aos ex-deputados, caracterizando em pormenor a IPSS (Instituição Privada de Solidariedade Social):


“O grande objectivo da Fundação é o de criar pequenos negócios para integrar pessoas com deficiências várias que se sintam socialmente úteis”, afirmou.
Jaime Ramos acrescentou ainda que o PBSL (Parque Biológico da Serra da Lousã), aberto ao público desde 2009 e já muito perto dos 53 mil visitantes, é “um negócio de turismo ligado à integração social, onde 80% dos trabalhadores são pessoas com deficiência mental ou física, desempregados de longa duração e vítimas de exclusão social”.


Depois foi a vez de prestar-se uma singela mas comovente homenagem à economista Ana Cláudia Linhares de Castro, ex-funcionária da FADFP, falecida no Verão, que era vítima de nanismo.

Numa cerimónia nos serviços de Contabilidade, onde a economista trabalhou a maior parte do tempo, repleta de colegas e funcionários da instituição, Jaime Ramos realçou as suas competências profissionais, a sua bondade e qualidade humana, e convidou os pais a descerrarem uma lápide comemorativa. O Prof. Linhares de Castro, pai de Ana Cláudia, referiu que “do alto dos seus 80 cm, ela ensinou-nos a ver o mundo com outros olhos: emocionados com este momento, sei que ela ficaria muito contente a dar a sua alegria, apesar de a vida lhe ter sido madrasta, num mundo de fraternidade como foi o dela”.


O cicerone Jaime Ramos levou depois os seus ex-pares a visitar a Residência Geriátrica, a Fisioterapia e o Ginásio, aberto à comunidade, a Residência Assistida onde funciona a Unidade de Cuidados Continuados de Saúde e o Lar Residencial para pessoas com graves deficiências mentais, neurológicas, ou paraplégicas.


Alguns dos ex-deputados, consideraram ser “uma pena que uma obra como esta não tenha mais divulgação na comunicação social”.


Jaime Ramos aproveitou para afirmar que “é possível que o Estado faça cortes nesta área, estando todos preocupados, mas teremos que esperar para ver, pois estas IPSS não existiriam sem esse apoio e o da União Europeia, pelo que se essas condições acabarem ficaríamos coma existência muito dificultada”.


Após um almoço no Restaurante Museu da Chanfana, à base pratos da gastronomia regional, como as Sopas de Casamento, a Chanfana, os Negalhos e o doce conventual Nabada de Semide, os ex-deputados visitaram o PBSL, nomeadamente o Zoo de Vida Selvagem, o Museu da Tanoaria e o Museu de Artes e Ofícios ao Vivo.


Os antigos deputados dirigiram-se depois para os Paços do Concelho, onde foram recebidos pela Presidente da Câmara Municipal de Miranda do Corvo, Fátima Ramos, e assistiram à apresentação do livro de Jaime Ramos “Não basta mudar as moscas...” por Nuno Filipe, também ele ex-deputado.



Críticas ao poder central e à democracia formal na Câmara Municipal
 


O subtítulo “Lisboa amante cara de um país pobre”, foi considerado por Nuno Filipe “não como um chavão mas sim como uma alegoria que indicia o caminho que a obra vai percorrendo na sociedade portuguesa “.


Nuno Filipe, referiu as “críticas duras aos responsáveis e à macrocefalia do poder político mas também ao quarto poder (media) que para lá migrou”.


Para Nuno Filipe, existe na obra “um anseio constante, que é a construção de um Estado Social avançado, num Pais que é assimétrico e desigual e que é urgente deixar de o ser, através do crescimento da economia e do combate à corrupção ou a interesses ilegítimos”.


Na sua concepção de socialista, Nuno Filipe apontou alguma contradição na obra:


“É que ao mesmo tempo que defende um Estado social avançado, defende igualmente aquilo a que chama capitalismo democrático, embora não tendo nada a ver com a concepção de Fukuyama, ou com a escola de Chicago. Mesmo assim, acha que para além do sistema capitalista, embora aperfeiçoado, não se vislumbra qualquer outra alternativa. E contudo, isso não o impede de denunciar o aberrante e injusto princípio, tão falado ultimamente, que consiste na nacionalização dos prejuízos para o povo suportar, e na privatização dos lucros para entrega indevida aos ricos e poderosos”.


Numa intervenção detalhada, registo ainda para uma nota pessoal do apresentador em relação ao autor:


“Ele acha ou deseja, que o capitalismo, ainda que democrático, pode ter sempre respostas para os problemas. Eu entendo que a dinâmica social e a história, vão demonstrar que, no futuro, a fase capitalista que foi um avanço nunca visto para a Humanidade, será ultrapassada por uma nova realidade económica, social e política. Daqui por quanto tempo? Ninguém seriamente pode fazer futurologia, mas meio século do processo histórico é muito pouco tempo; mesmo assim há sinais que apontam que este modelo está minado pelas suas contradições, sobretudo lá num sítio que o autor também analisa e contesta, que é o sistema financeiro por onde passam e se escondem os maiores crimes praticados na actualidade”.


Jaime Ramos falou então dos desígnios básicos que a sua obra refere: “somos um país desigual onde os 10% mais ricos estão mais longe dos 10% mais pobres; um país de castas como na Índia, onde só os filhos de boas famílias podem tornar-se médicos, com uma justiça de faz de conta onde decide-se a culpa ou inocência como se atirássemos uma moeda ao ar; é urgente mudar o sistema político de uma democracia formal que não funciona, capturada por aparelhos partidários e interesses financeiros”.


Jaime Ramos explicou ainda a sua visão de um Estado forte, rico e proprietário e não endividado e inquilino dependente das parcerias público privadas. Estado que se deve assumir como Senhor do Tempo, capaz de olhar á distancia e governar a pensar em décadas de distância, e não sujeito ao imediatismo dos lucros calculados ao trimestre. O autor indicou ainda três desígnios nacionais apontando a natalidade, a ocupação do território evitando o despovoamento, e a sustentabilidade do país pela melhoria da balança externa.


A autarca mirandense Fátima Ramos falou da obra da Fundação ADFP visitada pelos ex-deputados, convidando-os a conhecer o concelho a cujos destinos preside, como a aldeia de xisto do Gondramaz, o antigo Mosteiro de Santa Maria de Semide, o património religioso do santuário do Divino Senhor da Serra. Mas também do património gastronómico, das celebrações do centenário da República tendo como fonte inspiradora José Falcão, da pluralidade democrática no Executivo, Assembleia Municipal e Juntas de Freguesia.


Vítor Moura, em nome do presidente da AEDAR, Luís Barbosa, definiu a obra da FADFP como “magnífica”, falou dos ex-deputados que “não abdicam de serem políticos, apesar dos políticos, vítimas do mal da inveja serem tão mal vistos hoje”, e de “termos a sensação que vale a pena viver neste país, independentemente do pessimismo dos media, e de podermos vencer”. Finalmente foi a vez de Nandim de Carvalho, ex-deputado e ex-secretário de Estado do Turismo, referir três pontos: o “estarmos aqui a viver vários estados de alma numa linha comum de afecto e amor pela democracia””, o livro do ex-colega Jaime Ramos, que “ressalta o papel de agentes da democracia representativa, um dever cívico de todos nós” e “o respeito pelo poder social e a necessidade de descentralização democrática”.


Os membros da AEDAR visitaram por fim a exposição dedicada ao centenário da República, no Centro de Estudos Amadeu Carvalho Homem, na Biblioteca Municipal Miguel Torga.

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