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Com três novos confrades e em busca de um sentido ético

IV Capítulo da Real Confraria da Matança do Porco.

O IV Capítulo da Real Confraria da Matança do Porco teve lugar no Parque Biológico da Serra da Lousã, com a entronização de três novos confrades e “em busca de um sentido ético”, tema da oração de sapiência, no dia 13 de Outubro.

Aderiram a este IV Capítulo 120  confrades, de 15 confrarias, com a participação de uma confraria estrangeira, a confraria dos boletos (confrairie des Cèpes) francesa e com a primeira participação da confraria do vinho de Carcavelos, néctar que voltou aos tempos áureos.

O encontro dos confrades realizou-se pelas 9h30, no exterior do picadeiro coberto do Centro Hípico, com um desdejum de Salgados, Enchidos, Torresmos de Porco, Orelha de Porco, Sangue Ensalsado, regados por Espumante, Vinho Branco e Tinto, Sumos e Águas. Seguiu-se depois a missa na igreja matriz, finda a qual se fez a foto de grupo.

Pelas 11h30 teve início o ritual da matança do porco à moda antiga, um porco  cruzado de javali e porco preto, pelo Grupo Etnográfico das Tecedeiras dos Moinhos, em trajes de época, o golpe certeiro no coração do animal, a recolha do sangue fresco, a ablação das túbaros (testículos), a queima da carqueja, e a prova da orelha cortada e do sangue, cozido e temperado à maneira. A tradição ao som do tambor e do acordeão com os cantares das tecedeiras a preceito, antes de se iniciar o esquartejar do porco e de se assarem as febras para degustação.

Depois da matança os confrades dirigiram-se  ao interior do picadeiro, para a realização do capítulo, onde se procedeu à entronização dos três novos confrades, Cecília Carmo, Carlos Santos e Manuel Tomás, que prestaram o juramento da praxe, pelo vice patrono César Fernandes,.

Cecília Carmo é uma conhecida jornalista da RTP, Carlos santos medico em Lisboa e Manuel Tomás dirigente de IEFP aposentado.

“Em busca de um sentido ético”, foi o tema da Oração de Sapiência, da confrade Florbela  Sampaio, que começou por se interrogar que “em Bruxelas vai-se discutindo se isto é realmente uma tradição mas mesmo que se decida em sentido contrário alguém se importará? Tal não é necessário pois enquanto este costume se for mantendo a tradição completar-se-á”.  

 

O homem como um carnívoro ético?

 

A oradora começou por citar o filósofo e eticista francês  Dominique Lastel, autor da obra “Apologia do carnívoro”, que considera que “o homem irá tornar-se um carnívoro ético” e apela para “um consumo limitado e ritualizado de carne, num cerimonial que limite o nosso consumo de carne a estas ocasiões, com a condição de que toda a carne provenha de um animal bem tratado”.

Florbela Sampaio referiu então que a esta ideia aderiu Laurent Chevalier, que “profetiza um retorno a uma alimentação de caçador-recolhedor adaptado ao século XXI, centrada em legumes e frutos acompanhados de proteínas animais provenientes de produtos bio e de elevada qualidade”.

Mas para a oradora, o dia da matança do porco, além “de um cerimonial específico era/é um autentico dia de festa, um ambiente de folia e de aproximação ritual da família e da comunidade, pois estavam/estão presentes para além do núcleo familiar, os convidados, amigos e parentes qual banquete de Platão onde se celebra o amor mais universal que é o de partilhar”.

Ainda antes do “banquete”, Jaime Ramos, patrono do Real Conselho de Lavradores, começou por lembrar a génese desta confraria, que surgiu “como resposta à cruzada de Bruxelas que visava a proibição da criação do porco pelas pessoas e da sua matança”. Depois, realçou a cruz de Cristo no estandarte da confraria recordando que “das três religiões monoteístas só a cristã é que come carne de porco”.

Aos confrades presentes neste Parque Biológico da Serra da Lousã relembrou a filosofia da Fundação ADFP, que “aposta no convívio intergeracional, na integração dos deficientes, como funcionários e colaboradores, nos voluntários, e na inclusão social”. Jaime Ramos pôs a tónica do Parque integrar pessoas com deficiência ou doença mental, nomeadamente no Museu de Artes e Ofícios Tradicionais, que convidou os confrades a visitarem, bem como a zona de vida selvagem, “a mais completa mostra de animais do nosso território”. Por fim citou alguns projetos como os da suinicultura e apicultura assim como a vinha, cujo produto, o vinho Terra Solidária (da Várzea de Rabarrabos) fez parte do cardápio do “jantar da matança à antiga portuguesa”, a cargo do Restaurante Museu da Chanfana, ex-libris da gastronomia regional.


 

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