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“Uma proposta radicalizante que implica profunda mutação do regime”

No Centro de Altos Estudos Locais em Penela a 29 de Abril, Jaime Ramos lançou o livro “Não Basta Mudar as Moscas”

Com sala cheia, à imagem do que aconteceu em Miranda do Corvo e na Casa da Cultura em Coimbra, Jaime Ramos lançou o livro “Não Basta Mudar as Moscas” no auditório do Centro de Altos Estudos Locais Sérgio Arnaut, dia 30 de Abril em Penela.


Paulo Júlio, autarca penelense, que foi o anfitrião, após referir que Jaime Ramos “está em sua casa, pois tem ascendentes em S. Sebastião”, sublinhou que “nós lembramo-nos de Santa Bárbara quando troveja e, em Portugal, está a trovejar, devido ao conjunto de políticas das últimas duas décadas que nos conduziu a este ponto”:”nem eu nem o Jaime acha que seja um beco sem saída e quero dar-lhe os parabéns por esta reflexão, pois o país precisa de reflexão e de actos de cidadania”, concluiu.


Na apresentação deste livro, que tem como ante-título “Lisboa amante cara de um país pobre”, foi a fez de Fernando Antunes, ex-deputado do PSD por Coimbra e actual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Penela, começou por recordar o percurso de ambos como autarcas iniciado em 1980 e a ida de Jaime Ramos para o parlamento, “onde, como hoje, teve a oportunidade de ser polémico, foi alvo de dois processos disciplinares, um deles pela despenalização do aborto, o que para um jovem com 29 anos foi uma actuação corajosa e controversa, com louvores e alguns dissabores”, sublinhou.
 

Depois, Fernando Antunes acrescentou que Jaime Ramos só não foi governador civil de Coimbra durante mais tempo nem presidente da respectiva Câmara Municipal em 2000, “por não ser o yes man dos aparelhos partidários”:”por desilusão, desgosto, deixou a actividade partidária e dedicou-se ao exercício da cidadania, criando uma obra extraordinária, a Fundação ADFP, que todos deviam visitar”, acrescentou.


Para Fernando Antunes o livro “é uma pedrada no charco, sobre as desigualdades sociais, a protecção aos mais velhos, um grito de alma, um murro na mesa, muito mais do que o direito à indignação de que nos falava há alguns anos Mário Soares”.


“Este livro, depois de um mar de desilusão do que era um ideário e do que é agora, retrata uma sociedade de muitos enganos, e é um acto de cidadania social que junta a sua voz numa mensagem que inquieta e incomoda muita gente”, afirmou Fernando Antunes, acrescentando:”Jaime Ramos denuncia alguns falhanços das políticas dos últimos trinta anos, mas apresenta soluções, pois tem muito a corrigir”.


Fernando Antunes sublinhou o facto de “esta democracia, o centralismo do estado, tornarem o país desigual e desertificarem o interior”


“Com a destruição da agricultura nos últimos trinta anos, se a Europa nos fechar a torneira ainda há gente capaz de pegar numa enxada, mas também há muitos milhões sem valores nem ética, que vivem à conta do estado”, disse Fernando Antunes.


Finalmente, Fernando Antunes falou dos aspectos controversos do livro, “concordo em 85% do que o livro diz e das soluções que aponta”, mas quanto à regionalização disse não saber “se temos condições para isso hoje mas sou mais adepto de uma descentralização autónoma”.


“Uma proposta radicalizante que implica profunda mutação do regime”
“Há leituras e leituras mas tenho coisas a dizer depois de ler o conteúdo com todo o cuidado”, afirmou o Prof. Amadeu Carvalho Homem, da Faculdade de Letras de Coimbra, definindo-o como “uma proposta de tal modo radicalizante e intencional, que a ser praticada seria uma profundíssima mutação de regime”.


Carvalho Homem considerou que o livro “não se compadece com panos quentes e toca interesses e objectivos de muita gente muito bem instalada no nosso país”:”mas não é apenas uma questão do estado, mas também uma questão de enquadramento global”, sublinhou, acrescentando que “seria necessário construir o edifício todo desde os alicerces”.


O orador falou de algumas das propostas de Jaime Ramos, “é preciso que o presidente da república seja interventor e não um corta-fitas”, para rebater que ele, Carvalho Homem, é um “acérrimo defensor de um regime presidencialista”, da introdução do voto obrigatório sancionando a abstenção, do sistema eleitoral com lista nacional mas candidaturas uninominais, com os deputados a terem de se responsabilizar perante quem os votou, e com uma votação em rostos e não em emblemas partidários.
O Prof. Carvalho Homem sublinhou ainda a proposta de “sujeição do poder económico ao poder político”, porque hoje, afirmou, “quem nos governa são os grandes interesses económicos”, a criação da figura do “partido regional”, a juntar à descentralização e regionalização, e a transferência de estruturas políticas fundamentais como a Assembleia da República, o Tribunal Constitucional e a Procuradoria Geral da República “de Lisboa para outras cidades”.


Após recordar que o livro preconiza “o fim do facilitismo no ensino em prol de um ensino de competências e excelência”, Carvalho Homem afirmou:”é preciso acabar com a irresponsabilidade das novas oportunidades, um embuste total gerador de incultura”.


Quanto à economia, Carvalho Homem citou Jaime Ramos, “o sector do betão está para o estado como o doping está para o desporto” (jogos malabares por debaixo da mesa, é preciso partir a espinha ao lobby da construção civil), o levantamento do sigilo bancário e a criação de um imposto de sucessão sobre a riqueza.


“Já não estamos num tempo em são todos bons rapazes, já não se pode dar uma no cravo e duas na ferradura”, afirmou Carvalho Homem que, em jeito de conclusão, disse ainda:”em nome do PSD PPD futurista, se for isto pode contar com a minha assinatura, pois neste plano de futuro que Jaime Ramos tem de liderar, eu serei um soldado a seu lado”.


Por sua vez, Jaime Ramos referiu que escreveu o livro em 2010 “quando percebeu que o país caminhava para o abismo e uma situação de pobreza aflitiva”:”olhava para o governo e as oposições, todos a viver num mundo irreal, rumo ao abismo, sem que partidos, empresas, bancos e outros se apercebessem disso”, acrescentou.


“O FMI só está cá para que os bancos e os credores recebam o que nós pedimos emprestado, e não para nos ensinarem a ser mais competitivos, pois representa os grandes países como os Estados Unidos, Alemanha ou Japão”, disse o autor, para quem “não estamos condenados a ser aqueles de calças na mão a pedir dinheiro e à espera que os outros nos resolvam os problemas”.


“Nós temos democracia a menos, porque onde se vive muito bem, como nos países nórdicos, há sempre uma grande vitalidade democrática, ao contrário de países onde o fosso entre ricos e pobres, como Angola, deixa as elites com tudo e o povo sem nada”, acrescentou Jaime Ramos.


Quanto ao sistema de ensino, Jaime Ramos afirmou que ele está “ao nível do sistema de castas na Índia, onde nas castas que limpam as retretes, os filhos também o continuarão a fazer”. Para o autor “é preciso produzir talentos em todas as áreas de ensino, para que daqui a 25, 35 anos, não haja só Ronaldo no futebol, mas também na física, química, artes, economia ou filosofia”.


Para Jaime Ramos há três desígnios nacionais que são fundamentais: lutar contra o problema do envelhecimento, “temos mais velhos que crianças” e “é preciso uma política de apoio à maternidade e às famílias, pois daqui a trinta anos não podemos comprar crianças ou pessoas”; lutar pela reconquista do território, “que levámos séculos a ocupar contra os espanhóis e agora tudo o que não está entre Setúbal e Viana no litoral está a desertificar”; e o problema da balança externa, “o estado não pode continuar a endividar-se, até porque todas as famílias sabem que não podem gastar mais do que aquilo que têm, havendo até quem fique contente pelo FMI nos dar um prazo mais alargado para pagar o endividamento”. Mas acrescentou “é fundamental também uma política de incentivos á economia para se exportar mais e importar menos.”


Jaime Ramos defendeu um Estado “interventor e promotor” capaz de ser “relógio do tempo”, com politicas capazes de olhar para o futuro, com décadas de distância.


Jaime Ramos apresentou livro na Ordem dos Médicos em Coimbra
“Não basta mudar as moscas” provocou interesse e suscitou polémica



O livro de Jaime Ramos, médico e presidente da Fundação ADFP, “Não basta mudar as moscas” – Lisboa amante cara de um país pobre, provocou interesse e suscitou polémica na sua apresentação na sede da Ordem dos Médicos em Coimbra, dia 30 de Abril.


O anfitrião da animada sessão foi o bastonário da Ordem dos Médicos da Região Centro, João Manuel Silva, a par do presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Jogo Paulo Barbosa de Melo e dos dois oradores que apresentaram o livro, Manuel Antunes, reputado Professor e cirurgião cárdiotoráxico dos HUC e Fernando Gomes, presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos.
João Manuel Silva começou por afirmar que o livro nos põe face às preocupações actuais e do futuro, “temos que mudar tudo ou seremos dentro em breve um país falhado e sem futuro”, felicitou o autor pela sua forma “incisiva e polémica mas muito realista” e por o apresentar na Ordem dos Médicos, de que é membro.


Já o autarca de Coimbra, Barbosa de Melo, após referir que “estamos num período de depressão nacional aguda e profunda nestes tempos em que tudo parece posto em causa e pode ruir”, sublinhou que “é tempo para que pessoas empenhadas cívica e politicamente nos convidem a reflectir sobre as suas ideias”:”é preciso que as nossas cabeças se abram a novas ideias para ultrapassar este tempo de depressão que, certamente, não estará por cá até ao fim dos tempos”.
Depois foi a vez do Professor Manuel Antunes referir que não seria “totalmente laudatório” e também teceria “algumas críticas”:”Jaime Ramos mostrou-nos claramente que, se calhar, até está no partido errado”.
Manuel Antunes, que visitou a Fundação ADFP em Miranda do Corvo, pôde “apreciar o valor do homem, a quem devemos prestar tributo e um grande respeito” e não quis deixar no esquecimento que “não sabemos o que seria Coimbra hoje se Jaime Ramos tivesse concretizado a sua candidatura à Câmara Municipal em 2000”. A Jaime Ramos referiu-se ainda como “um humanista de convicções profundas e veementes, de valores, muito empenhado e preocupado em tudo aquilo em que intervém”.


Para Manuel Antunes o autor fala de “injustiça, oportunismo político, é contra o liberalismo sem alma na política portuguesa, quase da direita à esquerda” e trata-se de um livro sobre tudo ou quase tudo, muito crítico desta forma de democracia bloqueada em que vivemos, e que precisa de ser aperfeiçoada”.


“Capaz de várias comparações, como a da prostituição às multas de velocidade, que tornam a leitura agradável, não sabemos se devemos rir ou chorar”, prosseguiu Manuel Antunes, sublinhando o facto quanto Jaime Ramos “considera a classe política como duma irresponsabilidade completa e delirante”.

Algumas críticas e algumas concordâncias


Como uma das proposições do autor ao escrever a obra é tornar “os portugueses mais felizes”, Manuel Antunes afirmou que “não sei se vá contribuir muito para essa felicidade” e interrogou-se sobre ”porque é que um homem com tantas ideias específicas e práticas está retirado da vida política?” para dar ele mesmo a resposta:”temos maus políticos porque os que podem ser bons não estão interessados nisso, e não sei se a sua consciência ficará bem”.


Manuel Antunes disse também que o livro “desafia a inventividade colectiva, que talvez fique bem a este novo grupo da geração à rasca, e vai gerar controvérsia e contribuir para exacerbar os espíritos”: “quem o começar a ler não vai deixar de o fazer até à última página, até porque vai encontrar aqui muitas coisas e muitas ideias de que nunca tínhamos ouvido falar os outros políticos”.


“A contra ciclo da actual situação económica, Jaime Ramos defende a presença do estado na área social e no Serviço Nacional de Saúde (SNS), que defendo também”, afirmou Manuel Antunes, sugerindo que o autor é um “acérrimo defensor da economia de mercado, da qual o estado se afastaria progressivamente, mas só quando a sociedade estivesse preparada”.


O Professor e ciurgião vincou que “É preciso terminar com a promiscuidade público-privada, há coisas que se estão a fazer e com que não concordamos _ prosseguiu _ e que é preciso terminar de uma vez para sempre mas o sistema favorece e promove”.


Manuel Antunes afirmou estar de acordo em relação às posições sobre “a prescrição farmacêutica, exames complementares de diagnóstico, fisioterapia” e recordou que na Ordem dos Médicos “os dois últimos bastonários nunca as defenderiam porque eles próprios tinham e têm grandes interesses para manter o status quo”. Mas houve algo que, neste livro, o deixou “petrificado”, a posição sobre a liberdade dos fumadores, já que “é contra sua perseguição e os define como contribuintes exemplares”.


Concluindo, Manuel Antunes congratulou-se com o autor por tê-lo escrito de “uma forma tão oportuna, pois muitos destes pontos deveriam constituir parte dos programas políticos dos partidos que se estão a preparar para as eleições” e apresentou até uma metáfora: “como numa cirurgia o que se diz é feito com o bisturi nas mãos e vai doer”.


Um manual de teoria política a oferecer ao próximo primeiro-ministro


Fernando Gomes, presidente do Conselho Regional de Saúde da OM do Centro, antigo deputado pelo PCP, conheceu Jaime Ramos na Ordem dos Médicos e como “adversário político que já foi, eu por fazer parte daquela “esquerda estúpida” assim catalogada pelo autor.


“Não basta mudar as moscas” faz lembrar a Fernando Gomes um pouco o “vademecum”, isto é, “os políticos chegam, como lá chegaram e o que fizeram”:”trata-se de um manual de teoria política a oferecer ao próximo primeiro-ministro venha ele de onde vier”.


Fernando Gomes deixou a actividade política há dez anos, mas “hoje subscrevo a 80% o que aqui está escrito”: “O problema é que Jaime Ramos pode correr o risco de vir a ser acusado de cripto-comunista”.


De resto, o orador afirmou concordar a 100% com “todos os 26 pontos na área da saúde” .Fernando Gomes louvou “a coragem de quem assim se expõe” e por fim sublinhou que neste livro “estão todas as ideias da revolução francesa: liberdade, igualdade, fraternidade”.


Jaime Ramos começou por responder a Manuel Antunes, sublinhando que fez “a primeira lei para prevenir o tabagismo, obrigando a Tabaqueira a pôr nos maços os avisos dos malefícios do tabaco”.
O autor referiu “o delírio dos políticos, do governo à oposição, em relação a obras como o TGV, o aeroporto de Lisboa, a nova ponte Vasco da Gama, como se não percebessem a crise”, falou de “elites gananciosas”, da “democracia bloqueada”, dos políticos que “são eleitos nos seus partidos quase a 100%, o que não é democracia”.


Jaime Ramos recordou que em 1996 já falava da “alentejinação” de Portugal no espaço europeu, transformando-se “num grande Alentejo e Trás-os-Montes desertificados” e de algumas ideias fundamentais:”o problema da democracia e liberdade a menos”,”o problema da democracia formal que não funciona”, “as crianças que deviam votar ou os pais por eles”, a necessidade de “obrigatoriedade do voto”, a necessidade de “organizações descentralizadas eleitas e não nomeadas pelo poder lisboeta”, “mais igualdade e justiça social”.


O autor não abdica de criticar o sistema de ensino, que mantém uma sociedade estratificada “como as castas” na Índia, da necessidade de ensinar as crianças valores como o da “compaixão, tolerância e bondade” e de que “mais vale ser do que ter”, e de orientar o ensino para a “descoberta de talentos em todas as áreas”, única forma de “competitividade para o futuro”.


Jaime Ramos referiu que “mais do que o FMI, que nos vem obrigar a pagar aos credores, com juros o dinheiro que pedimos emprestados e não a sermos competitivos”, preferiria o “FBI, para pôr a justiça a funcionar e acabar com a corrupção”:“às nossas crianças devemos ensinar para não acreditarem nos que nos dizem que há só um caminho, pois há sempre um segundo e um terceiro por onde escolher”, concluiu.

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