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“Sem-abrigo é um negócio de milhões de euros que é preciso combater”

Daniel Horta Nova na Universidade Sénior da Fundação ADFP

Sem Abrigo Zero é um projeto da Fundação para Coimbra

De jornalista e empresário da comunicação social a sem-abrigo num ápice, Daniel Horta Nova, 56 anos, esteve 5 anos na rua, sobretudo no Porto, e veio relatar a sua experiência aos alunos da Universidade Sénior de Miranda do Corvo da Fundação ADFP, dia 16 de Fevereiro.

Daniel Horta Nova almoçou com Jaime Ramos no Restaurante Museu da chanfana e antes visitou o Cento Social Comunitário e as diversas valências da Fundação ADFP.

O líder da Fundação e este "sem abrigo" sentiram que tinham visões semelhantes nesta problemática que implica muito sofrimento nas suas vítimas.

A Fundação ADFP pretende iniciar um projecto em Coimbra que visa não uma ação meramente caritativa mas incluir as pessoas sem-abrigo, dando-lhes dignidade, teto e inclusão social em vez de exclusão. A curto prazo a Fundação ADFP vai abrir a Casa Dignidade onde haverá um refeitório, com teto, para os sem-abrigo jantarem sem ser na rua.

“Sem-abrigo é um negócio de milhões de euros que é preciso combater em Portugal, e no qual à rua só chega comida e roupa, um negócio que é preciso fiscalizar, razão pela qual tenho lutado contra ele”, afirmou Daniel Horta Nova.

Diante de uma plateia cheia de alunos da Universidade Sénior, no âmbito das “Conversas Improváveis”, surpreendidos com a violência de um relato na primeira pessoa, que foi uma lição de vida, Daniel Horta Nova falou dos sem-abrigo, a partir do seu slogan “nós também somos gente, gente que ainda quer ser gente que é gente”, sendo certo que mais de 90% estão em grandes cidades como Lisboa e Porto.

Há mês e meio que percorre os 18 distritos de Portugal em bicicleta, recolhendo os testemunhos dos sem-abrigo, de norte a sul, num percurso que a TVI acompanha regularmente, e que terminará em breve, em Lisboa, onde Daniel Horta Nova irá apresentar na Assembleia da República, doze medidas para tirar os sem-abrigo da rua, pretendendo levar a voz daqueles que estão na rua:

“Porque há soluções e vou levá-las à Assembleia da República. Se de 12 pegarem em duas, e quando houver 14 pegarem em 4 já é um caminho aberto”, diz convicto.

Esta iniciativa tem lugar num momento em que a Assembleia da República se apresta a debater uma estratégia para a questão dos sem-abrigo. Por outro lado, a vinda a Miranda do Corvo coincide com o cada vez mais falado projecto “Sem-abrigo Zero”, em Coimbra, uma iniciativa de Jaime Ramos, presidente do Conselho de Administração da Fundação ADFP. O primeiro passo foi a aquisição da Casa Dignidade, perto da antiga estação Parque, onde ainda em Fevereiro começará o projecto “Refeição Social Com Teto”, que terá como voluntários a investigadora Sónia Mairos, e os psicólogos Pedro Machado e Dalila Salvador, (estes últimos estiveram presentes na palestra de Daniel Horta Novo).


“Ser Sem-Abrigo foi muito violento, sobretudo ao nível da cabeça”


Daniel Horta Nova considerou um choque, o 1º dia em que chegou à estação de Stª Apolónia [em Lisboa] e deparou com alguns sem-abrigo deitados.

“Cheguei hoje, é o meu primeiro dia”, afirmou, após o primeiro contacto com os seus novos pares, que caracterizou como “amigos, pela partilha, a quem se abraça, e acima de tudo a lealdade”.

“Criam-se grupos, que se transformam em família, são novos irmãos. Isso ensinou-me porque as pessoas estavam ali à espera de uma oportunidade. As pessoas nessas alturas diluem-se, passamos por elas e nem sequer as vemos”, acrescentou.

Nas ruas os sem-abrigo recebem roupa, uma sopa quente, e alimentos como leite, iogurtes, bolachas e sandes, alguns fora de prazo, mas não propriamente uma refeição quente. Daniel Horta Nova queria uma solução, “mas não houve resposta para sairmos dali e fui para o Porto”.

“Gastam-se muitos milhões de euros para que os sem-abrigo fiquem na rua”, acusa este “porta-voz” dos sem-abrigo.

“São precisas novas ideias, novas abordagens, olhar para as pessoas como gente, dar um abraço, um toque, olhar olhos nos olhos, sorrir. É preciso reinseri-los, ocupá-los e por isso grito basta”, afirmou o orador.

“É preciso fazer algo e já, as associações são funcionais mas nada fazem em prol da integração social, a Segurança Social não tem respostas, é preciso gritar basta!”, sublinha Daniel Horta Nova.

“Hoje estamos todos muito bem amanhã não se sabe, pois qualquer pessoa sem suporte cai na rua. Há uma razão só para os sem-abrigo em Portugal, pensarem pela própria cabeça, que não suportou o choque ou desestruturação que as levou à rua, muitos com problemas de cabeça, de saúde mental e é preciso tirá-los da rua com urgência”


“A desgraça está sempre à nossa frente”


“Certo que também há toxicodependentes e alcoólicos entre os sem-abrigo, a desgraça está sempre à nossa frente, mas a culpa não é deles, é o sistema, pois quando chegam à rua não têm ninguém para os ajudar”, diz Horta Nova.

Mas também há idosos de 70 anos e mais na rua, o que é mais complicado, já são casos de desemprego social. E a Segurança Social não pode fazer nada porque o sem-abrigo vai dizer-lhe que não”.

A maioria dos sem-abrigo são homens mas estão cada vez mais a chegar à rua muitas mulheres jovens ou mais velhas, com filhos, sobretudo no Porto, Setúbal e Leiria onde “a situação é muito grave”, denuncia Daniel Horta Nova.

“Depois há aquelas pessoas que vivem na rua há 40 ou 50 anos, em que se nota que há ali uma disfunção mental, que têm de ser tratadas, não com um olhar de pena, mas de respeito, quando dizem que estão na rua porque querem é porque não querem mesmo sair da rua. É preciso trabalhar a cabeça, caso contrário volta à rua. Trabalho é a última coisa que se deve oferecer às pessoas. Quem tem capacidades integra-se nem que seja em termos ocupacionais”, chama a atenção, Daniel Horta Nova.

Em Lisboa, funciona um centro social em Arroios, onde há sempre filas para as refeições. Daniel Horta Nova caracteriza quem lá vai comer: “50% dos que estão na fila, só dez é que são sem-abrigo, pois há muita pobreza envergonhada e, claro, os oportunistas”.

Já quanto ao Banco Alimentar, não quer falar, “demoraria 2 ou 3 anos”, mas mesmo assim vai dizendo que “é um bom projecto, ainda com muito boas ideias, não tem é uma boa distribuição, é tudo para as associações, que depois as fornecem aos sem-abrigo”.

Reproduzir a sua palestra de uma hora, em todos os seus matizes, seria tarefa inglória, mais própria de um livro que certamente andará nos sonhos futuros deste ex. Sem-abrigo, que tornou-se sem dúvida um ativista, porta-voz daqueles que não têm voz.

“Quando saí da rua, quando entrei na minha casa [cuja chave deixara na caixa do correio quando fui para a rua] dormi não na cama, mas no chão. Senti falta daquilo”.

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