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“Não basta mudar as moscas” com casa cheia na Ordem dos Médicos

“Pesos pesados” no lançamento do livro de Jaime Ramos em Lisboa

António Capucho, António Saraiva e Carvalho da Silva, foram os “pesos pesados” que falaram na apresentação do livro de Jaime Ramos “Não basta mudar as moscas”, numa cerimónia que teve casa cheia e foi presidida pelo presidente da secção regional sul da Ordem dos Médicos, Pereira Coelho, e que contou com a intervenção de Vanda Lopes, da Editora Chiado, no dia 10 de Maio.


Pereira Coelho fez as honras da casa começando por dizer que “esta cerimónia seria impensável na minha vida há dez anos atrás, onde me dava por satisfeito em ser um bom clínico”, já que foi solicitado para o cargo que agora ocupa:”retomando as actividades culturais desta casa. Confesso que só hoje à tarde passei uma vista de olhos pelas críticas e resolvi ler o livro duma assentada numa noite”.


O presidente da CIP (Confederação da Indústria Portuguesa), António Saraiva, muito embora ainda não tivesse lido o livro, falou da simbologia da capa vermelha, o futuro próspero e de sucesso que Jaime Ramos aponta para daqui a 25 anos, e da contracapa a negro, em que sem mudança de rumo Portugal se arrisca a ser um país mais pobre e mais pedinte do que é hoje, já que “este é um tempo complicado, em que temos de mudar de rosto com novas políticas e garantir crescimento económico: “Em Portugal a culpa é sempre do árbitro e nunca dos jogadores, pelo que não basta mudar as moscas”, concluiu o presidente dos “patrões”.


Depois foi a vez de António Capucho, Conselheiro da Presidência da Republicado, destacado político do PSD, do qual foi secretário-geral e vice-presidente da comissão política nacional, ex-deputado, ex-ministro, ex-autarca e ex-vice-presidente do parlamento europeu:”Jaime Ramos destacou-se sempre seja no parlamento seja no poder local, preocupando-se com o ambiente, um homem de lucidez, cidadão livre e atento, que faz aqui como bom médico um diagnóstico exaustivo sobre vários problemas do país, com abrangência, ambição, ousadia e aponta soluções concretas”.


“Ninguém que leia este livro, discorde ou não, lhe pode ser indiferente, face ao carácter provocatório da obra, escrita não em politiquês mas num português agradável, compreensível a todos”, referiu António Capucho, que citou Barbosa de Melo, “um hino à liberdade” e António Arnaut, “uma pedra atirada à consciência de muitos mas também uma mão estendida para quem queira salvar o país”.


“Apesar do diagnóstico muito negativo, o autor acredita no futuro de Portugal, cabendo-nos decidir se queremos continuar a ser um país problemático ou um país de sucesso”, afirmou Capucho, que se identifica “sem favor com a maior parte das ideias expressas, até porque temos ambos preocupações humanistas”.


António Capucho concorda em que “mais que a crise económica é a crise moral e ética, pior que a bancarrota financeira è a bancarrota moral”, pelo que “a crise deve-se à irresponsabilidade das elites, que é transversal a toda a sociedade portuguesa”.


Após elogiar o trabalho social de Jaime Ramos à frente da Fundação ADFP de Miranda do Corvo, que considerou “uma obra fantástica”, em jeito de conclusão, António Capucho parafraseou o autor quando este citou Jorge Sampaio, alterando ligeiramente a premissa:”há vida para além do memorando com a troika”.


Não se pode ignorar o sistema capitalista em que vivemos


O líder da CGTP-Intersindical, Carvalho da Silva, reafirmou a sua “admiração e respeito pelo percurso político, cívico e social” de Jaime Ramos, reforçados após a visita que fez à Fundação ADFP, e debruçou-se logo sobre a obra:”tem uma certa dispersão nas temáticas e críticas aqui e ali não aprofundadas, mas põe-nos questões sobre a situação do sistema em que vivemos”:”muitas vezes se ignora que esse é o sistema capitalista”, afirmou.


“Tudo é responsabilidade do Estado mas o facto é que é preciso saber o estado do Estado e de toda a sociedade portuguesa, para definir posicionamentos”, defendeu Carvalho da Silva, para quem “a Segurança Social é o Estado, que gere um compromisso a partir do capital do trabalho e não em função do capital, o que implica maior distribuição da riqueza e que não se façam cortes de forma linear”.


Para Carvalho da Silva, o livro é também “um diagnóstico das fragilidades nacionais, onde se valorizam as capacidades do país”:”quando o autor diz que, daqui a 25 anos, podemos ser um dos países mais pobres ou um dos de maior sucesso é preciso não nos esquecermos que as escolhas não são feitas só por nós (União Europeia e enquadramento global) ”.


Aquele líder sindical realçou no livro, que “é preciso pôr termo ao fado da tristeza colectiva, à compaixão, à mediocridade das elites”, que “a saída da crise nãse faz com pensamento único (totalitarismo)” e que está “contra o nacional porreirismo, defende melhores salários e mais justiça social”.


”O problema é o falhanço das pessoas, a ineficácia da governação em gerir a coisa pública, mas não só, são também as empresas e as pessoas”, sublinhou.


Carvalho da Silva falou de ser preciso termos “sonhos, isto é, objectivos, através de uma análise rigorosa do terreno que pisamos, dando cada um o seu contributo”, e da premência em “definir o que fazer em concreto”:”para termos sonhos novos e melhores hoje em Portugal, não podemos submeter-nos à subjugação, nem podemos oferecer às jovens gerações precariedade e desemprego, e muito menos dizer-lhes que vão viver pior do que os avós”, concluiu.


“Vivemos todos acima das nossas possibilidades e quando se partem as grandes fatias do bolo caiem migalhas que são aproveitadas” procurando dizer que alguns ficam com maior parte pelo que não é legítimo dizer que quem só ficou com os restos comeu o bolo, disse Carvalho da Silva, acrescentando que, “no entanto, em relação à crise nacional, não se pode afirmar que estão todos ao mesmo nível, pois a maioria dos portugueses não vive acima das suas possibilidades”.


Não há saída sem responsabilidade colectiva e individual


Carvalho da Silva fez eco da citação de José Saramago feita por Jaime Ramos _”antes gostava de dizer que a direita era estúpida, mas hoje digo que a esquerda é que é estúpida porque deixou de ser esquerda” _ para contrapor que “há excesso de direita no sentido mais tradicional do termo”.


“”Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos”, referiu Carvalho da Silva, “sem memória não existimos e sem responsabilidade não o merecemos”.


Após referir que “não há saída sem responsabilidade colectiva e individual”, Carvalho da Silva afirmou que “é preciso governação e conteúdos muito para além do acordo, no qual teremos que pagar taxas de juro entre os 5,5 e os 6%, sem crescimento económico”, alertando para o perigo da “recessão e regressão social e civilizacional que se avizinha”:”metamos pés ao caminho e demos corda aos sapatos, concluiu.


Jaime Ramos começaria por dizer que, entre várias razões, uma das que o fizeram escrever “Não basta mudar as moscas” foi o ter constatado “o delírio do governo e da classe política, a projectarem grandes investimentos para obras megalómanas, como se ainda viesse ouro do Brasil” e deu como exemplo de irresponsabilidade no Ramal da Lousã:”modernizar tudo bem, mas arrancar os carris e destruir a linha para depois perceber-se que não tinham dinheiro para continuar a obra, isso não”.


Para o autor, a irresponsabilidade “não é só do governo, mas também de organismos morais, das elites académicas e económicas, que optaram pelo silêncio”:”Muita gente foi calando, por medo ou comodismo”. Falou do bloqueio da democracia, afirmando que muitas pessoas pensam : votar para quê se nada muda?”, acrescentou.


Outra das razões para esta obra foi essa “Lisboa, amante cara de um país pobre”, onde as pessoas enfrentam situações de violência e insegurança e onde se acentuam as desigualdades. Afirmou “a política tem dificuldade de actuar e ninguém debate o que de facto importa ás pessoas”, pelo que o livro pretende trazer “imaginação ao cinzentismo político”.


“Mais democracia e mais liberdade”, advoga Jaime Ramos, para quem pensar em “suspender e ter menos democracia é profundamente errado”, sendo necessário “mais liberdade, mais justiça e mais solidariedade social”:


”Face ao aumento progressivo da estratificação social devemos ser capazes de mudar a profunda desigualdade” sublinhou o autor.


Considerando o sistema de ensino um dos “desígnios nacionais”, para além da desertificação e da baixíssima natalidade, Jaime Ramos considerou que “um país que desperdiça os seus talentos não pode progredir”. Deu o exemplo de Cristiano Ronaldo, filho de uma família pobre de um bairro pobre na Madeira, que se tornou o melhor futebolista do mundo depois de descoberto por um olheiro, sublinhando que “os professores devem ser como os olheiros”:
”A educação é o melhor veículo para modernizar o país e há que apostar nos nossos talentos, com rigor e disciplina, embora em Portugal isso seja difícil, porque há uma cultura de facilitismo”. “Não podemos desperdiçar a inteligência de crianças talentosas só porque são pobres” vincou Jaime Ramos


Jaime Ramos afirmou que “o Estado tem que ajudar as empresas exportadoras e ter uma posição diferente de defesa do interesse nacional para que se aumentem as exportações e se reduzam as importações”.


”Para os portugueses o Estado é que é sempre o mau da fita, quem foge aos impostos é um espertalhão, mas nós precisamos de um Estado forte e não pelintra”.


“Precisamos de um Estado dono dos hospitais, das estradas, das escolas e não de um estado inquilino que paga rendas e vende o património”, concluiu Jaime Ramos. A propósito do acordo com a troika, deixou no ar uma questão “vamos entrar nos eixos?”, e no terreno uma resposta, ”não, não vamos e isso tem de ser denunciado”:
”Uma coisa é certa, sempre que nos disserem que só há um caminho a seguir é porque nos estão a enganar, porque há sempre um segundo e um terceiro e nós temos o direito de escolher o melhor e não aquele que nos querem impor” afirmou a concluir.

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